Vocês, meus queridos irmãos, já ouviram falar de Arthur Schopenhauer?
Schopenhauer foi um filósofo alemão, do século XIX, que, à parte de seu caráter extremamente pessimista, era um apaixonado pela dialética aristotélica, a ponto de escrever um livro chamado "A Arte de Ter Razão", onde ele apresenta uma série de estratagemas (lícitos ou ilícitos, como aquele em que ele diz que quando estiver tudo perdido, simplesmente xingue o seu "adversário") com o objetivo final de se ganhar uma discussão, ignorando a existência verdades ou mentiras, ignorando a necessidade de se acreditar naquilo que você defende, uma vez que a discussão é, nada mais nada menos, que um esporte - o esporte da dialética.
Eu nunca li esse livro até o fim.
Mas o considerava como o meu livro de cabeceira.
Porque eu adorava ter razão. Adorava provocar discussões, e sempre, SEMPRE ter a opinião contrária. Gostava de me sentir inteligente, uma inteligência especial, diferente, que sempre tinha opinião sobre tudo, capaz de ver as coisas sob um ângulo que ninguém era capaz.
E conhecer esse livro, conhecer essa ótica da dialética esportiva, saber que outras pessoas além de mim também gostavam disso, me inspirou, me inspirou muito. Eu procurei obter a razão transitória sobre tudo, e sobre todas as coisas. Lia muito, me mantinha informado, e falava. Falava muito, falava demais com as pessoas, e treinava a minha dialética, treinava para obter a eloquência ao ponto máximo de saber utilizar com maestria os estratagemas de Schopenhauer.
E eu gostava dessa eloquência. Gostava de ser eloquente. E gostava MUITO de ouvir pessoas que também eram eloquentes.
E acho que, por ironia (ou quem sabe por obra de Deus?), foi justamente essa busca pela eloquência que operou a maior das obras na minha conversão.
Da primeira vez que eu fui a um Grupo de Oração, nos convidaram, já, para um retiro - o Congresso Estadual de Jovens da RCC, em Torres. Não posso dizer que fiquei animado com isso. Quer dizer, eu senti Deus naquela primeira noite, senti o batismo do Espírito. Mas ainda sentia necessidade do mundo; claro, ninguém nasce já querendo explorar todo o Universo que se existe fora do útero da mãe - por que haveria de ser diferente com um re-nascimento?
E eu sempre fui de estereotipar. Me defendia com preconceitos, por que o que era novo e diferente não me interessava. Pensava, por exemplo, que eu chegaria lá, no dia da viagem, e encontraria "jovens saudáveis e felizes, sorrindo para os quatro cantos e cantando musiquinhas de Igreja ao violão" (alguém aí lembra daquele filme "Jimmy Bolha"? Então...) - o tipo de coisa que eu achava que nunca iria suportar, afinal, como diria o poeta, "a felicidade não existe; o que existe são momentos felizes", e sorrir o tempo todo pra gente que você não conhece me parecia falso e efusivo.
Não me levem a mal vocês, meus irmãos, que foram comigo, que me receberam e me acolheram naquele início de caminhada. Não é que eu não gostei de vocês - ao contrário, foi justamente a acolhida, os abraços e as palavras tão carinhosas que vocês me deram naquele meu primeiro dia que me fez continuar nessa caminhada, e não me canso de falar isso, quantas vezes forem necessárias. O caso é que eu via as relações - e acima de tudo as atitudes - humanas de uma forma diferente. Não entendia como era possível alguém ser bom apenas por ser bom, sem segundas intenções.
Então, depois de ter minha inscrição confirmada à revelia pela namorada (obrigado, de coração, Rê!), não tive outra escolha senão ir no tal retiro. À contragosto, mas fiel à minha palavra.
E, a partir dali, eu nunca mais seria a mesma pessoa.
Não me aterei a detalhes. A viagem foi cansativa, a espera para arrumar alojamento foi estranha, mas o lugar que me hospedaram foi incrivelmente, absurdamente confortável.
Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. (Gn 1,5)
Apesar de atrasado, cheguei ao lugar onde se realizava o retiro pouco depois do café-da-manhã, e o Ministério de Música estava apenas começando a animação. E, bom, esse primeiro momento me foi muito estranho, tenho que confessar. Eu não sabia como me portar, eu não conhecia as músicas e não sabia cantá-las, eu não sabia e não QUERIA dançar, eu não sabia pra onde olhar, não sabia o que fazer...
Não sabia se não teria sido melhor ter ficado em casa.
Claro, o Ministério de Música era ótimo. As vocais cantavam lindamente, o guitarrista era um monstro de bom, os outros músicos competentes e entrosados etc. e isso me prendeu a atenção durante todo aquele início. Mas, sei lá, pra mim parecia que faltava algo.
E faltava sim. Faltava a (minha) motivação.
E ela apareceu, quando chamaram à frente um certo rapaz, de camisa vermelha e sorriso cativante, chamado Ricardinho.
Bom, eu sempre gostei de gente eloquente. Adoro gente que fala bem e sabe se expressar. Seria capaz de ouvir Fidel Castro falando por horas porque ele sabe falar.
Agora, imagine ouvir alguém que fala bem e que realmente TEM algo a dizer?
Então, aquele momento, quando o Ricardinho se apresentou e começou a falar foi especial pra mim, porque ali eu achei um motivo pelo qual me sentar e prestar atenção: a própria figura do pregador.
Tá certo que, no início, eu tinha minhas restrições sobre O QUÊ ele pretendia me passar com aquelas palavras, afinal, eu acreditava naquilo que eu achava que eu poderia acreditar, já que eu achava que, por eu ser soberano sobre mim mesmo, eu também era meu próprio juíz, único capaz de decidir o que é bom e o que não é, o que é certo e o que não é para mim.
A gente nega a Deus nessas pequenas coisas, irmãos. Claro, nós temos a nossa vontade própria, que é ao mesmo tempo fruto da Providência Divina e do Pecado Original. Mas essa vontade TEM que se submeter à graça de Deus, já que tudo é por Ele, com Ele e n'Ele. E é justamente na soberba de achar que nossos atos, aquele que decidimos somente por nós e para nós, sem pensar em consequencias (em nós e, principalmente, nos outros), não maculam a nossa santidade, que é a benção do Espírito Santo que VIVE dentro de nós (palavras do Ricardinho!) que traduz a maior fonte de pecado que nós, humanos demais, nem percebemos.
Então eu estava lá, sentado, ouvindo aquele cara falar sobre Deus de uma forma tão pessoal, que era como se ele estivesse falando do melhor amigo dele. Ouvia ele falar com tanta autoridade, que era como se ele fosse o enviado d'Ele, como se ele fosse ali o Anjo do Senhor que trazia a nova anunciação da Verdade. Ouvia ele falar do dia do Senhor, que era como se as palavras dele fossem a própria trombeta de Sião que veio anunciar a profecia de Joel. Ouvia ele falar das Sentinelas da Manhã, como se ele próprio fosse o Capitão que iria enviar os seus soldados para lutar o bom combate.
E sabe do que mais? Ele RELMENTE foi isso tudo, naquela manhã.
E eu tinha o coração fechado, no momento em que tudo começou. Fechado porque eu sentia que eu não pertencera àquele lugar, já que, por mais que eu tinha, sim, sentido o Sopro da Vida de Deus uma semana antes, no Grup de Oração, eu ainda tinha as minhas dúvidas. Eu não sabia se era intelectualmente certo (e eu uso aqui a palavra "certo" de uma forma icônica, traduzindo a gigantez tão pequena que eu sentia a respeito da minha intelectualidade) acreditar em Deus, se era certo ter fé em algo impossível de ser provado, já que é etéreo e particular.
Mas, "ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem". (Hb 11,1)
E, dessa forma, a cada palavra que o Ricardinho dizia, eu me sentia estranhamente inquieto. E cada vez que eu me inquietava, eu me deixava ouvir um pouco mais do que ele dizia, buscando, justamente, aquela paz inquieta. Vocês, meus irmãos, não saberão como é esse sentimento tão paradoxal até no dia em que vocês se deixarem experimentá-lo.
E, a cada dose homeopática de paz que eu recebia, mais eu abria o meu coração, de pouqinho em pouquinho.
Até que, enfim, Ele me arrebatou.
Bom, o que posso dizer, hoje, quase um mês depois, além de "eu devia ter trazido um caderninho"? O que dizer da injeção de fé e de paz que eu recebi a cada palavra que o Ricardinho falava? Como descrever, meus irmãos, com palavras o que eu senti quando eu VI a Mão de Deus tocar as feridas mais profundas e mais antigas do meu coração? Como dizer que eu ví Deus, sem que eu possa O enxergar?
Como se pode descrever 0 Amor de Deus que é derramado, como enxurrada, de uma vez só no nosso coração, quando tudo o que a gente faz é dar uma pequena brecha pra Ele?
Isso tudo, meus irmãos, nós descrevemos com apenas três palavras: PAZ DO SENHOR!
E esse estratagema da razão Schopenhauer não pôde prever.
"Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros." (1Ts 4,9)
E essa é a verdadeira Arte de Ter Razão.
E, assim como a música que o Ricardinho tanto usou no decorrer da pregação, nunca se esqueçam, meus queridos, que "todo joelho se dobrará e toda língua proclamará que Jesus Cristo é o Senhor. Nada poderá me abalar! Nada poderá me derrotar! Pois, minha força e vitória tem um nome - e é Jesus!"
Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém irá ao Pai senão por Ele (Jo 14,6).
Guardem isso em vossos corações.
Até a próxima, que Deus esteja convosco.
A Paz!
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"Todas as veredas do SENHOR são misericórdia"
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"Entrou então em si e refletiu: quantos empregados há na casa de me pai, que tem pão em abundância... e eu aqui,estou a morrer de fome! Vou me levantar e irei a meu pai, e lhe direi: Meu pai, pequei conta o céu e contra ti." (Lucas 15, 11-18)
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