quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sansão, o fracote

Amados meus!

Hoje minha cabeça trabalhou incessantemente. Hoje minha memória foi vasculhada, meu subconsciente trouxe à tona questionamentos, lembranças e fatos, da minha vida passada e, principal e especialmente, da minha vida atual; coisas que mexeram comigo.

Mexeram comigo por um simples fato: me fez ver e constatar que eu sou fraco.

"Claro", você diz, "todos nós somos fracos - faz parte da condição humana". Sim isso é verdade. Mas a gente acaba não percebendo isso, não visualizando isso no contexto do nosso dia-a-dia, porque nós tendemos à olhar para as nossas vitórias, e esquecer as nossas derrotas, já que perder é ruim e nós, como humanos racionais, buscamos a felicidade (e o mais engraçado é que a felicidade tem nome e sobrenome - Jesus Cristo - mas nós - pelas nossas fraquezas - temos a habilidade única de COMPLICAR tudo, e esconder a felicidade de nós mesmos). Observar as nossas falhas é um exercício ruim, porque nos deixa fracos e expostos. Esconde-las nas nossas vitórias nos faz sentir fortes.

E essa força - atraente que é - é também subversiva: é como uma carapaça que nós vestimos, um exo-esqueleto de um inseto que guarda (de forma frágil, mesmo assim) por fora o corpo molenga e indefeso de dentro.

Isso acaba se tornando fonte de pecados, porque não reconhecemos algumas das nossas piores falhas, e a maquiamos com alguma suposta virtude que teoricamente iria suprimi-las. Mas, na próxima oportunidade (e satanás, ardiloso que é, vai sempre te jogar ao encontro dessas mesmas situações, precisamente), você tropeça na MESMA PEDRA e recomeça todo o caminho - que envolve justificação por vias de falsas escusas, culpas que atribuímos aos outros, mentiras que contamos a nós mesmos, etc.

"Portanto, quem pensa estar de pé veja que não caia." (1Cor 10,12)

Essa pequena falha de caráter é (acredito - e ESPERO) comum a todos nós, homens de carne e sangue (cf. Eclo 14,19), que temos que buscar a Deus e clamar pelo Espírito, afim de que nos tornemos santos como o próprio Deus é santo (cf. Lv 11,44).

Mas isso não é "privilégio" nosso, não. Até mesmo os ungidos do Senhor tinham suas fraquezas.

Porque, na minha humilde opinião, o homem MAIS FRACO de toda a Bíblia era um ungido do Senhor.

Era um dos Juízes de Israel.

Era Sansão.

Porque, por trás de toda a virilidade, toda a força física, toda brutalidade, toda resistência, todos os dons e aspectos que Deus concedeu a ele, existe um homem absurdamente fraco. Fraco nos desígnios de Deus, fraco em resistir às tentações e às privações, fraco nas concessões que ele (e que, em suas devidas proporções, nós também) devia para com o Senhor.

Fraco, porque cedia às suas próprias vaidades.

Vejamos: Sansão foi designado desde o seu nascimento a ser um nazireu (cf. Jz 13,5) - que era uma consagração especial ao Senhor. Sendo consagrado ao nazirato, à ele era proibido beber - afim de manter-se mentalmente são, não sucumbindo à vontades que não viessem do Espírito de Deus -, tocar em cadáveres - para manter-se cerimonialmente puro - e cortar o cabelo - colocando-se assim sujeito a Deus e tendo um sinal visível dessa consagração.

São votos que exigem renúncias ao Senhor - que basicamente é o que ele pede a cada um de nós.

E Sansão não resistiu - a nenhum deles.

Sansão tocou na carcaça de um leão que ele mesmo matara apenas por um POUCO DE MEL (cf. Jz 14,8-9).
Sansão se juntou à outros 30 homens, à parte, durante a sua festa de noivado (cf. Jz 14,10-11) - a famosa "despedida de solteiro" (que naquela época duravam vários dias, à fio) - onde se comia e se bebia - e MUITO. Ora, se ele não bebeu ali, naqueles dias, eu mudo de nome.
Sansão se rendeu ao charme de Dalila, a ponto de entregá-la o "segredo" de sua força (não seus cabelos, mas a sua consagração a Deus - cujo sinal visível era o cabelo cf. Jz 16,15-21) , que culminou com ele tendo seus cabelos cortados.

Sansão cedeu às suas próprias fraquezas - sempre por motivos vãos e pequenos.

Toda aquela força sobre-humana, todos os feitos notáveis, só serviram pra que ele se fiasse EM SI MESMO - e na pequenês dessa fortaleza toda, que é fruto do amor de Deus - e acabasse enterrando essas fraquezas sob o aspecto de homem-de-ferro. Fato notável sobre a vida de Sansão é que ele, em toda sua história, só ora duas vezes: a primeira quando quase morre de sede (em Jz 15,18-19), e na segunda, quando, cativo nas mãos dos filisteus, cego, sem forças e depois de ser traído por Dalila, pede ao Senhor que restituísse sua força para se vingar de tudo que seus inimigos lho fizeram (em Jz 16,28).

Sabe o que acontece? Deus, não obstante suas constantes falhas e faltas contra a Lei, é MISERICORDIOSO com ele. Faz brotar uma fonte de água de uma rocha no primeiro caso e o toma da mesma força que ele tivera no passado para derrubar o templo abaixo e, "desse modo, matou pela sua própria morte muito mais homens do que os que matara em toda a sua vida" (Jz 16, 30).

Deus reconhece a fraqueza do seu ungido. Deus não as aprova, a ponto de deixá-lo depois de ver que ele (me permitindo uma linguagem mais vulgar) "se vendeu por um rabo de saia" (em Jz 16,20). Mas, nos momentos em que, passando por cima do seu orgulho, Sansão MOSTRA A SUA FRAQUEZA diante d'Ele, o Senhor é tomado de profunda COMPAIXÃO. Apesar dos erros de Sansão, Ele derrama as suas graças sobre a sua vida. Ele ouve suas lamentações, e não o abandona.

Amados, nós temos o Espírito do Senhor sobre nós, que nos foi derramado no batismo, graças às promessas de Jesus cumpridas em Pentecostes. Nós, também, somos ungidos do Senhor. Embora sejamos, sim, fracos e derrubados por essas mesmas fraquezas, somos fortes em Cristo, porquanto fomos livrados de todo o peso do mundo por ELE MESMO, quando nos disse "Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei" (Mt 11,28), e que ele cumpriu quando assumiu - qual cordeiro da expiação - todos os nossos pecados e se ofereceu a si próprio em sacrifício, derramando o seu Preciosíssimo Sangue, aspergindo a todos nós e derramando a Sua Infinita Misericórdia sobre as nossas fraquezas.

Ademais, Sansão era um Juíz de Israel. Era uma espécie de líder tribal (já que Israel ainda não havia sido unificada) do povo de Deus, escolhido por Ele para que "será ele quem livrará Israel da mão dos filisteus." (Jz 13,5).

Porém, TODA A SUA MOTIVAÇÃO FOI PESSOAL. Cada filisteu que ele matou, cada um deles, ele o fez não por seu povo, mas por si só, pelas suas próprias vaidades (como em Jz 14, 18-19 no episódio do enigma; Jz 15,3-5 quando ateou fogo aos trigais dos filisteus; Jz 15,6-8 em vingaça por seu pai e esposa, etc. Inclusive, seu ato derradeiro de derrubar o templo dos filisteus e matar mais de 3.000 homens, ele o fez "para vingar-me dos filisteus pela perda de meus olhos" em Jz 16,28).

Sansão não enxergava o bem-comum da sua tribo (a ponto de ser entregue, pelos próprios homens de Judá, aos filisteus, após atear fogo nos trigais, já que eles temiam uma retaliação por parte dos inimigos, cf. Jz 15, 10-13). Aliás, tenho pra mim que Sansão não enxergava muito mais à frente do seu peitoral sarado.

E, no entanto, toda a sua obra foi de valor incalculável para a história do povo de Deus.

Impressionante, né?

Isso porquê, por mais que agisse por si só, ainda assim Sansão era um instrumento de Deus para a Sua obra. Deus se usou da própria vaidade de Sansão para realizar aquilo que Ele queria para seu povo (cf. Jz 13,25 ou 14,2-4, etc.).

Deus olha por cima das nossas fraquezas - ou, melhor, faz DAS NOSSAS FRAQUEZAS ARMAS para o seu combate.

O Espírito do Senhor incitou Sansão (cf. Jz 13,25) a provocar os filisteus. Ele tomou os seus desejos, as suas fraquezas, o seu (uso de novo a liberdade de me expressar de forma vulgar) "tesão" desenfreado (haja vista ele só ter se relacionado com mulheres estrangeiras, o que era proibido pela Lei) e os usou, inspirando-os por essas mesmas faltas, a se levantar contra os inimigos de seu povo e contribuir para que Israel se livrasse das garras dos rivais.

Porque Deus necessita de nós por inteiro.

Com nossas virtudes, proezas, habilidades, etc, mas também com nossas fraquezas, faltas, falhas, medos.

Nunca poderemos nos julgar incapazes de servir a Deus, porque não existe incapacidade diante d'Ele, que é capaz de tornar os nossos próprios pecados em instrumentos de fortaleza - para Deus, para os irmãos e até para nós mesmos. São Paulo mesmo o diz, em 2Cor 12,7.

Por que teríamos medo, se nada é impossível para Deus?

Amados, eu me senti fraco esses dias, sim.

Mas da minha fraqueza surgiram palavras. Palavras que vos exortam a fortalecer-vos no Senhor pelo seu soberano poder (cf. Ef 6,10).

Porque nenhuma fraqueza o apartará do amor de Deus, e nem dos planos maravilhosos que Ele tem pra tua vida.

Até a próxima, que Deus esteja convosco.

A Paz!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

... noites traiçoeiras...

Meus amados,

Resistir é preciso. Firmar-se na fé é requisito para salvação. Perseverar é palavra de ordem, porque aquele que perseverar até o fim será salvo (Mt 24,13). Temos que resistir às tentações, retirar o jugo do pecado e abraçar o Cordeiro Imolado. Acreditar no Sangue poderosíssimo do Cristo, lavar a alma e seguir, sempre em frente.

Todos nós, cristão, sabemos disso. É condição si ne qua non da nossa busca pela santificação interior.

E a cada dia na caminhada, nós nos fixamos ainda mais nesse objetivo, e naquele que é o mandamento prioritário, segundo o próprio Jesus, de amar a Deus sobre tudo, e sobre todas as coisas.

Mas, meus amados, nem sempre a nossa fé, que é fraca, porque somos povo santo e pecador, basta para resistir a tudo. Entenda, nós, criados em um mundo cada vez mais secular temos fraquezas, cada vez mais facilmente expostas. "Não há homem justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar (Ecl 7,20)", e o pecado nos envergonha, nos faz sentir derrotados e fracos.

E, quando nós enfraquecemos, nossa fé, que já é fraca, esmorece ainda mais.

Forma-se o círculo vicioso.

Sabem, amados irmãos, quando eu voltei para a Igreja, e recomecei a minha caminhada, eu me sentia santificado, entregue e indefectível na fé. Aquelas palavras de Sabedoria que eu escutava me preenchiam, a fé me preenchia, preenchia aquele buraco vazio que eu guardava no peito, porque a fé me levava a Jesus Cristo, que é o Todo, o Alfa e o Ômega, o Inteiro daquela fagulha de santidade que existe em cada um de nós. N'Ele, eu encontrava aquilo que eu sempre buscava e que sempre me faltava, mas eu não sabia que me faltava e não sabia o que era.

Me senti renovado, impávido e feliz. Com efeito - me sentia livre. Capaz de resistir às tentações, capaz de apagar o que eu fora outrora. Vida nova e renovada.

E a cada dia que eu me entregava mais, mais eu acreditava que poderia resistir com mais vontade.

E é ali que o maligno age com maior astúcia.

Amados, eu passei por um período muito difícil nessas últimas semanas. Um período sombrio, de noites traiçoeiras. Um período de influências que se deve afastar, de pensamentos que não devemos cultivar, de lembranças que preferimos esquecer e, acima de tudo, de dúvidas.

Dúvidas de ontem, de hoje, e do amanhã. Dúvidas que machucam a alma e rasgam o coração. Dúvidas sobre coisas que tinha por certezas. Dúvidas que carregam tristezas.

E dúvidas que levam, inerente, ao pecado . O pecado do ato, da palavra ou da omissão.

O pecado que faz você, antes invencível, agora um caído.

E isso justamente quando você se preparava para dar um passo maior no caminho do Senhor.

Meu irmão, você com certeza já passou por isso. E, se não passou ainda, vai passar. Porque o inimigo quer te tomar de Deus, quer ter você de volta. Ele não pode tocar no que é de Deus, mas pode - e VAI - tocar naquilo que é dos homens - a vaidade das vaidades.

E você, meu irmão, vai sofrer e chorar, porque se sentirá fragilizado.

Isso aconteceu comigo.

E o que fazer, senão dar glória a Deus por isso?

Porque, "ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados;antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal. Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1Pd 3, 14-18)".

Não há, em Cristo, sofrimento em vão! Não há dor que não se compadeça o Pai! Não há derrota para quem se coloca aos pés d'Aquele que venceu a morte! Porque para todo o pecado há o perdão do coração contrido!

Busca, meu irmão, o amor do Pai! Te arrepende dos teus tropeços, e confessa a tua falha! Depois, segura na mão de Deus e vai! Se tu és tentado pelo maligno, regojiza-te: Deus tem planos para ti! Caminha o bom caminho, combata o bom combate e consagra o teu sofrimento naquela mesma Cruz que te libertou no passado!

"Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. (1Cor 10,13)"

Meus queridos irmãos, não se esqueçam nunca que a dor que sentirdes por Cristo, com Cristo será aliviada, e ém Cristo será recompensada. Não se esqueçam que se o maligno te visa, é porque Deus te tem.

"E se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8,31)"

Até a próxima, e que Deus esteja convosco!
Resistir sempre, perseverar sempre!

A Paz!

sábado, 12 de junho de 2010

Força e Vitória...

Vocês, meus queridos irmãos, já ouviram falar de Arthur Schopenhauer?

Schopenhauer foi um filósofo alemão, do século XIX, que, à parte de seu caráter extremamente pessimista, era um apaixonado pela dialética aristotélica, a ponto de escrever um livro chamado "A Arte de Ter Razão", onde ele apresenta uma série de estratagemas (lícitos ou ilícitos, como aquele em que ele diz que quando estiver tudo perdido, simplesmente xingue o seu "adversário") com o objetivo final de se ganhar uma discussão, ignorando a existência verdades ou mentiras, ignorando a necessidade de se acreditar naquilo que você defende, uma vez que a discussão é, nada mais nada menos, que um esporte - o esporte da dialética.

Eu nunca li esse livro até o fim.

Mas o considerava como o meu livro de cabeceira.

Porque eu adorava ter razão. Adorava provocar discussões, e sempre, SEMPRE ter a opinião contrária. Gostava de me sentir inteligente, uma inteligência especial, diferente, que sempre tinha opinião sobre tudo, capaz de ver as coisas sob um ângulo que ninguém era capaz.

E conhecer esse livro, conhecer essa ótica da dialética esportiva, saber que outras pessoas além de mim também gostavam disso, me inspirou, me inspirou muito. Eu procurei obter a razão transitória sobre tudo, e sobre todas as coisas. Lia muito, me mantinha informado, e falava. Falava muito, falava demais com as pessoas, e treinava a minha dialética, treinava para obter a eloquência ao ponto máximo de saber utilizar com maestria os estratagemas de Schopenhauer.

E eu gostava dessa eloquência. Gostava de ser eloquente. E gostava MUITO de ouvir pessoas que também eram eloquentes.

E acho que, por ironia (ou quem sabe por obra de Deus?), foi justamente essa busca pela eloquência que operou a maior das obras na minha conversão.

Da primeira vez que eu fui a um Grupo de Oração, nos convidaram, já, para um retiro - o Congresso Estadual de Jovens da RCC, em Torres. Não posso dizer que fiquei animado com isso. Quer dizer, eu senti Deus naquela primeira noite, senti o batismo do Espírito. Mas ainda sentia necessidade do mundo; claro, ninguém nasce já querendo explorar todo o Universo que se existe fora do útero da mãe - por que haveria de ser diferente com um re-nascimento?

E eu sempre fui de estereotipar. Me defendia com preconceitos, por que o que era novo e diferente não me interessava. Pensava, por exemplo, que eu chegaria lá, no dia da viagem, e encontraria "jovens saudáveis e felizes, sorrindo para os quatro cantos e cantando musiquinhas de Igreja ao violão" (alguém aí lembra daquele filme "Jimmy Bolha"? Então...) - o tipo de coisa que eu achava que nunca iria suportar, afinal, como diria o poeta, "a felicidade não existe; o que existe são momentos felizes", e sorrir o tempo todo pra gente que você não conhece me parecia falso e efusivo.

Não me levem a mal vocês, meus irmãos, que foram comigo, que me receberam e me acolheram naquele início de caminhada. Não é que eu não gostei de vocês - ao contrário, foi justamente a acolhida, os abraços e as palavras tão carinhosas que vocês me deram naquele meu primeiro dia que me fez continuar nessa caminhada, e não me canso de falar isso, quantas vezes forem necessárias. O caso é que eu via as relações - e acima de tudo as atitudes - humanas de uma forma diferente. Não entendia como era possível alguém ser bom apenas por ser bom, sem segundas intenções.

Então, depois de ter minha inscrição confirmada à revelia pela namorada (obrigado, de coração, Rê!), não tive outra escolha senão ir no tal retiro. À contragosto, mas fiel à minha palavra.

E, a partir dali, eu nunca mais seria a mesma pessoa.

Não me aterei a detalhes. A viagem foi cansativa, a espera para arrumar alojamento foi estranha, mas o lugar que me hospedaram foi incrivelmente, absurdamente confortável.

Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. (Gn 1,5)

Apesar de atrasado, cheguei ao lugar onde se realizava o retiro pouco depois do café-da-manhã, e o Ministério de Música estava apenas começando a animação. E, bom, esse primeiro momento me foi muito estranho, tenho que confessar. Eu não sabia como me portar, eu não conhecia as músicas e não sabia cantá-las, eu não sabia e não QUERIA dançar, eu não sabia pra onde olhar, não sabia o que fazer...

Não sabia se não teria sido melhor ter ficado em casa.

Claro, o Ministério de Música era ótimo. As vocais cantavam lindamente, o guitarrista era um monstro de bom, os outros músicos competentes e entrosados etc. e isso me prendeu a atenção durante todo aquele início. Mas, sei lá, pra mim parecia que faltava algo.

E faltava sim. Faltava a (minha) motivação.

E ela apareceu, quando chamaram à frente um certo rapaz, de camisa vermelha e sorriso cativante, chamado Ricardinho.

Bom, eu sempre gostei de gente eloquente. Adoro gente que fala bem e sabe se expressar. Seria capaz de ouvir Fidel Castro falando por horas porque ele sabe falar.

Agora, imagine ouvir alguém que fala bem e que realmente TEM algo a dizer?

Então, aquele momento, quando o Ricardinho se apresentou e começou a falar foi especial pra mim, porque ali eu achei um motivo pelo qual me sentar e prestar atenção: a própria figura do pregador.

Tá certo que, no início, eu tinha minhas restrições sobre O QUÊ ele pretendia me passar com aquelas palavras, afinal, eu acreditava naquilo que eu achava que eu poderia acreditar, já que eu achava que, por eu ser soberano sobre mim mesmo, eu também era meu próprio juíz, único capaz de decidir o que é bom e o que não é, o que é certo e o que não é para mim.

A gente nega a Deus nessas pequenas coisas, irmãos. Claro, nós temos a nossa vontade própria, que é ao mesmo tempo fruto da Providência Divina e do Pecado Original. Mas essa vontade TEM que se submeter à graça de Deus, já que tudo é por Ele, com Ele e n'Ele. E é justamente na soberba de achar que nossos atos, aquele que decidimos somente por nós e para nós, sem pensar em consequencias (em nós e, principalmente, nos outros), não maculam a nossa santidade, que é a benção do Espírito Santo que VIVE dentro de nós (palavras do Ricardinho!) que traduz a maior fonte de pecado que nós, humanos demais, nem percebemos.

Então eu estava lá, sentado, ouvindo aquele cara falar sobre Deus de uma forma tão pessoal, que era como se ele estivesse falando do melhor amigo dele. Ouvia ele falar com tanta autoridade, que era como se ele fosse o enviado d'Ele, como se ele fosse ali o Anjo do Senhor que trazia a nova anunciação da Verdade. Ouvia ele falar do dia do Senhor, que era como se as palavras dele fossem a própria trombeta de Sião que veio anunciar a profecia de Joel. Ouvia ele falar das Sentinelas da Manhã, como se ele próprio fosse o Capitão que iria enviar os seus soldados para lutar o bom combate.

E sabe do que mais? Ele RELMENTE foi isso tudo, naquela manhã.

E eu tinha o coração fechado, no momento em que tudo começou. Fechado porque eu sentia que eu não pertencera àquele lugar, já que, por mais que eu tinha, sim, sentido o Sopro da Vida de Deus uma semana antes, no Grup de Oração, eu ainda tinha as minhas dúvidas. Eu não sabia se era intelectualmente certo (e eu uso aqui a palavra "certo" de uma forma icônica, traduzindo a gigantez tão pequena que eu sentia a respeito da minha intelectualidade) acreditar em Deus, se era certo ter fé em algo impossível de ser provado, já que é etéreo e particular.

Mas, "ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem". (Hb 11,1)

E, dessa forma, a cada palavra que o Ricardinho dizia, eu me sentia estranhamente inquieto. E cada vez que eu me inquietava, eu me deixava ouvir um pouco mais do que ele dizia, buscando, justamente, aquela paz inquieta. Vocês, meus irmãos, não saberão como é esse sentimento tão paradoxal até no dia em que vocês se deixarem experimentá-lo.

E, a cada dose homeopática de paz que eu recebia, mais eu abria o meu coração, de pouqinho em pouquinho.

Até que, enfim, Ele me arrebatou.

Bom, o que posso dizer, hoje, quase um mês depois, além de "eu devia ter trazido um caderninho"? O que dizer da injeção de fé e de paz que eu recebi a cada palavra que o Ricardinho falava? Como descrever, meus irmãos, com palavras o que eu senti quando eu VI a Mão de Deus tocar as feridas mais profundas e mais antigas do meu coração? Como dizer que eu ví Deus, sem que eu possa O enxergar?

Como se pode descrever 0 Amor de Deus que é derramado, como enxurrada, de uma vez só no nosso coração, quando tudo o que a gente faz é dar uma pequena brecha pra Ele?

Isso tudo, meus irmãos, nós descrevemos com apenas três palavras: PAZ DO SENHOR!

E esse estratagema da razão Schopenhauer não pôde prever.

"Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros." (1Ts 4,9)

E essa é a verdadeira Arte de Ter Razão.

E, assim como a música que o Ricardinho tanto usou no decorrer da pregação, nunca se esqueçam, meus queridos, que "todo joelho se dobrará e toda língua proclamará que Jesus Cristo é o Senhor. Nada poderá me abalar! Nada poderá me derrotar! Pois, minha força e vitória tem um nome - e é Jesus!"

Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém irá ao Pai senão por Ele (Jo 14,6).

Guardem isso em vossos corações.

Até a próxima, que Deus esteja convosco.

A Paz!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Gênesis do meu Renascimento

Hoje em dia eu posso dizer: sou um jovem cristão carismático. Creio em Deus, em Jesus Cristo, peço a unção do Divino Espírito Santo, tenho em Maria a minha fonte de graças e carrego (a partir de hoje!) a minha Bíblia.

Mas nem sempre foi assim.
E por isso dou aqui, agora, como ponto de partida, o meu testemunho.

A minha vida nunca foi tão desregrada, assim. Quer dizer, eu sempre fui um cara legal, pelo menos desde que eu me propus a isso, lá pelos meus desesseis anos. Sempre tive amigos, sempre estive rodeado de pessoas que gostavam de mim e eu - por que não? - gostava delas. Nunca briguei na rua, nunca cometi crime algum, não tive muitas namoradas, não fui promíscuo, não fui mal-caráter por completo.

Porém, nunca fui santo, também. E sim, eu aprontava das minhas.

Idolatrava pessoas como Charles Bukowski, John Fante (e principalmente seu personagem-alter-ego Arturo Bandini), Kurt Cobain, os "rock stars" e outros caídos em geral. Achava exótica a amargura da vida. Ouvia black metal (não por adorar ao demônio, que eu sempre achei ridículo, mas, e porque, eu achava aquilo tudo muito engraçado). Gostava de pornografia. Fui infiel à minha amada, aquela que ainda hoje batalha ao meu lado e reza pela minha cura, e a quem eu dedico essa renovação. Fui bêbado - por pura e simples vontade de ser. Gostava de beber, gostava da bebida, gostava de perder a noção. Fumei maconha, algumas vezes, por influência de amigos ou de pessoas mais ou menos próximas. Era sarcástico, egocêntrico, egoísta, manipulador (que escondia por trás de uma fachada de "cara legal"), agressivo(mas só com quem discordava de mim), preguiçoso, guloso, e - pior de tudo - indiferente.

Indiferente com tudo. Não ligava para o que sentiam por mim. Não ligava para o que esperavam de mim. Não ligava para o que me diziam, não ligava para o que deveria ligar, para o que poderia me tornar uma pessoa melhor.

Não ligava para Deus.

Não que eu fosse ateu. Quer dizer, eu gostava de ter uma idéia simples da coisa toda: achava que, se Deus existia, ele, por ser magnânimo e perfeito e bom e misericordioso e livre de pecados, haveria de me absolver no final de tudo, afinal de contas, dizia eu, eu era uma pessoa essencialmente boa, e ele não iria me condenar ao inferno só porque eu não O idolatrava, já que isso seria soberba e soberba é um pecado. Por outro lado, se Ele não existisse, eu não me sentiria culpado por ter dedicado a minha vida inteira a um grande monte de nada. Me escondia por trás da frágil denominação de "agnóstico" - o indiferente.

Achava bonita e interessante a liturgia e o ritual litúrgico, como um observador, alguém que admira algo por belo, e apenas isso.

E acreditava que seria sempre assim.

Mas o Senhor age de forma misteriosa.

Eu me apaixonei uma vez, por uma guria. Nós nos conhecemos, batalhamos, e aos trancos e barrancos, após glórias e (MUITAS) provações, nós fizemos 5 anos de namoro. 5 anos que ela os dedicou a mim, mais do que eu os dediquei à ela. 5 anos em que, dia após dia, ela acreditava que, um dia, eu poderia regenerar minha alma e coração tão corrompidos.

E esse dia chegou. E, como sempre acontece nas coisas de Deus, chegou da forma mais estranha possível.

Era uma sexta-feira de maio de 2010. Tinha sido um dia bastante cansativo e estressante no trabalho. Por isso, fui convidado para um happy hour (entende-se por churrasco, bebida e sinuca num boteco ao lado da firma) depois do expediente. Normalmente a namorada brigaria e não permitiria que eu fosse, especialmente sozinho (dado às chagas que ficaram do nosso passado) . Mas naquele dia ela permitiu que eu fosse, e pediu para que eu estivesse de volta até às 20 horas.

Assim, lá eu fiquei, das 17 às 19:45, essencialmente bebendo, jogando e tentando ser, tentando me tornar alguém querido, me encaixando no julgamento dos outros. Acho que todos nós passamos por isso, em algum momento da nossa vida, principalmente quando somos jovens, né? Digo, nós tentamos nos moldar, como se o amor dos outros nos fosse dado de forma condicional, não por nós, mas pela imagem refletida daqueles em nós. É uma forma de idolatria egocêntrica - amar a nossa imagem refletido nos outros.

Quando voltei pra casa, estava ligeiramente alcoolizado. Não estava bêbado, tinha plenas posses das minhas faculdades mentais, mas já apresentava uma (quase) aparente disfunção motora e aquela famosa dislexia na hora de falar. Por isso, fui com medo, medo de brigar com a namorada, de me sentir triste por ter, de novo, falhado com ela (apesar de não ter mentido para ela, ter dito a verdade sobre onde eu estaria, e o que eu estaria fazendo).

Mas qual foi a minha surpresa ao ver que ela tinha se arrumado e estava quase saindo de casa.

Perguntei onde ela iria. Ela me disse que iria ao Grupo de Jovens (Grupo de Oração Anjo Gabriel, daqui de Teutônia); convite que ela já havia me feito algumas vezes, e que eu sempre inventava uma desculpa para não ir.

Mas dessa vez ela não me chamou para ir junto, só disse que iria, e que se eu quisesse podia ir junto.

E eu resolvi ir. Não por que me senti chamado por Deus, ou por que queria me arrepender em expiação dos meus pecados. Resolvi ir para acalmar a namorada, e evitar que ela brigasse comigo.

Mas o que aconteceu lá foi obra de Deus.

Primeiro por que lá eu me senti acolhido. Lá as pessoas me receberam e me abraçaram e me amaram por quem eu era - como Deus me criou, criatura única e própria d'Ele, criado à Sua imagem e semelhança, mas diferente, por alma e espírito, das outras pessoas (assim como somos todos nós). E era exatamente essa pessoa que foi acolhida e amada - o âmago do meu ser, a alma que Deus criou.

Depois, por que lá eu, finalmente, conheci a Deus. Senti Deus. Senti seu Espírito, e o toque das mãos chagadas do Filho no meu coração.

Claro, no início eu me senti acanhado, com todas aquelas pessoas dançando, pulando e correndo no meio da igreja ("incendeia, Senhor a Tua Igreja! Incendeia, Senhor a Tua Igreja!"). Mas quando as pessoas começaram a louvar, quando elas fecharam seus olhos e abriram seus corações, quando exteriorizaram, ali, ao meu redor, as maravilhas que Deus fazia em suas vidas, eu também me senti arrebatado. Eu também fechei os olhos, levantei as mãos e louvei. E as palavras saíam da minha boca, de forma tímida, sim, mas saíam. E eu senti - elas vinham do coração.

E por último, veio a Adoração.

Para quem vê de fora, acha estranho um monte de gente ajoelhada diante do Sacrário, em posições desconfortáveis, falando sem cessar.

Mas para nós, estamos diante do próprio Cristo. Não há dor, não há desconforto, não há tristeza. Há só a graça de Deus, o amor do Pai, ungido pelo Filho (diante de nós) e sacramentado pelo Espírito.

E eu aprendi isso, aquele dia.

E foi lá, também, que eu recebi o convite para o meu primeiro Retiro. Mas eu já estou prolongando demais esse post, e portanto esse será um assunto para outro dia.

O que importa, irmãos e irmãs, é que Deus age sobre nós, e que Ele nos ama, incondicionalmente, não obstante os nossos pecados, pois aquele que se entrega a Deus partilha da Sua Infinita Misericórdia.

E Ele gosta, em especial, de nós, arrependidos, que voltamos aos braços do Bom Pastor.

"Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. (Lc 15, 7)"

Portanto, meus amigos, eu, em testemunho, lhes digo: perseverem na fé em Cristo Ressucitado, que as glórias hão de vir em dobro!

Até a próxima, que Deus esteja convosco.

A Paz!